Sua camisola branca e seu corpo agora estavam banhados em grandes respingos de sangue de seu amado, sua mão segurava a arma que havia tirado sua vida, e diante dela, o espelho grande e com moldura de bronze refletia toda a cena do amor, o amor que não podia existir, o amor que toma conta dos amantes.
No momento exato em que havia atirado um filete de sangue escorreu do meio de seu peito em direção à barriga, vários respingos de sangue tomaram conta do quarto, mostrando o momento exato de sua morte. Ele a lançou um olhar de confusão e decepção,
seus olhos ficaram fixos em algo mas ao mesmo tempo pareciam perdidos, e de repente, foi como se o peso do mundo caísse sobre suas pernas e ele não fosse forte o suficiente para suportá-lo. Desabou no chão, em frente ao espelho. O fascinante espelho que escondia em seu passado os segredos, as brigas, as dores, as noites de amor e tudo o que se pode
esperar de duas pessoas loucamente apaixonadas e amedrontadas pela covardia agora refletia um corpo sem alma.
Ela ficou intacta, olhando o corpo nu de seu amado caído sobre o antigo piso de madeira, ensanguentado, manchado, ferido, morto. Ele não queria que ela tivesse tirado a sua vida, mas esse era o único jeito que ela havia encontrado para que os dois pudessem
ficar juntos para sempre.
Largou a arma em cima da cama, acendeu um cigarro e deitou-se no chão, ao seu lado, em cima da possa de sangue que havia se formado. Apoiou um dos braços em seu peito e o outro no chão, e examinou seus olhos negros pela última vez e soltou a fumaça de cigarro na direção deles. Fechou lentamente o direito e depois o esquerdo com a ponta dos dedos e ficou a observar seu belo rosto por algum tempo, seus últimos minutos de vida. Chorou pela última vez ao se lembrar da profundidade de seu amor. Era sempre difícil pensar nisso porque ela era tomada de repente pela certeza de que aquilo tudo era meio confuso por se tratar de uma coisa tão grandiosa, intensa mas sem uma explicação racional.
Estava decidida a partir junto com ele, em uma viagem eterna para um lugar tranquilo longe de tudo o que pudesse impedir o amor e a felicidade de ambos. Acreditava que deixando essa vida para trás poderiam ter um final longe de tudo que se parece concreto demais, longe do mundo, em um lugar só dos dois, sem nenhuma interrupção.
Passou a ponta dos dedos sobre seus lábios, sobre suas sobrancelhas, sobre seus cabelos, e aproximou o nariz de seu pescoço, para poder sentir o cheiro dele pela última vez. Fechou os olhos cheios de lágrimas enquanto ainda podia sentir seu perfume.
Beijou delicadamente seus lábios e levantou-se lentamente, andou até a cama e pegou a arma, então deitou-se novamente ao lado de seu amor.
- Essa é a maior prova de amor do mundo. - Ela sussurou, num misto de lágrimas, felicidade e vitória.
Posicionou a arma em seu peito e puxou o gatilho. Só o que se ouviu foi um barulho alto e estonteante, e logo depois, a calmaria.
Tão rápido quanto piscar. Agora a eternidade era deles.
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